domingo, 17 de maio de 2020

canto pra um inexistente despois

luita e utopia cadavres que descansam no asfalto pancartas e berros sistema sem rostro escritos e proclamas multitude num grande contraste em branco e negro imprensa vendida aduladora do régime efígie reta dum pai pra todas especialistas em falsear a violência protocolo monopolizado liberdade pra morrer como escravas do consumo as máscaras de horrores passados som desveladas

+++

luita e utopia teoria sem prática povo baixo a barbárie uma ferida profunda na subjetividade romanticismo do longe tinguido de sangue implicaçom detrás da barreira do capitalismo que reconforta e inventa explicaçóns das mortes que nom quere assumir

+++

luita e utopia palestras cara uma multitude em greve voam os panfletos e as consignas manifesto do efémero a revoluçom das obreiras estudantes do povo repressom dos punhos em alto que caem no silêncio

+++

luita e utopia os seus disparos som contra elas mesmas facianas perdidas na prisom do dia a dia imagens veladas dos horrores da noite liberade a expressom com tinta de grafite cara um negro e inexistente despois

luns, 27 de abril de 2020

aquí
alheio a tudo
na repetiçom do dia a dia
alheio a tudo
aquí

luns, 13 de abril de 2020

escritura automática
á tua beira
ti ensaias linhas, puntos e borranchos
num dos teus primeiros cadernos
e eu uno palavras neste que,
logo dos seus bons anos,
já se está rematando

atenta a tudo
ao que fago eu
(ás vezes metes o bolígrafo
e tachas algo que escrevo,
mais pobre de mim se fago
o mesmo no teu!!!)
ao que está fazendo mamá,
á música que soa na equipa de som ou no móbil,
ao cantar dos paxaros
ou ao ladrido dos cans,
incluso a se pita a padeira!

e assí vas medrando
pouco a pouco, um mundo,
sentadinha á minha beira,
nestes estranhos dias de incerteza...

Escrito entre Trelherma na manhá do 11 de abril de 2020

domingo, 12 de abril de 2020

vês os carrafuços da moto, mamá?
sem eles as rodas caem
e se caem as rodas
caio eu
e manco-me
e cecais chove, ou nom,
pois som dura
e somente o sono
pode fazer que o pranto
seja inconsolável

quem ia dizer
que uma verba tam própia do avó e da avoa
ia ter uma segunda
e tam longa vida...

+++

velaí vem
a senhora velutina
coas suas madalenas
e fundas ganas de falar
pois sente que as asas
já nom agarimam o vento coma antes
e os seus olhos melancólicos
tecem verbas de recordo
mentres ti, pequena Luz,
cheiras uma laranja recem caída
que sugarás num ritual
que lembrará almorços e merendas
na velha casa de Trelherma

amém

+++

ti nom estás
minha pequena, nom,
mentres sobrevoa os meus pensamentos
um aviom na noite,
é o mundo que agoniza e sofre
e preguntas polas avoas e polos avós,
e polo padrinho, e Pat, e Manuel e Lois,
e polas amizades primeiras da escola,
e Marta, e tudas as demais (ate polo pediatra!)
que albiscárom e prendêrom
nos teus doces olhos e espelida memória

e sonhas com volver á cidade do tubarom,
e mais á dos capuchinos, titis e a gram ursa,
quem olhava o teu prácido amamentar,
e á tua casa de longe,
onde aprendeste a dizer bom joueur e merci
e subir ao metro na gram urbe do sur
onde o bacalhau é religiom

ti nom estás
minha pequena, nom,
mentres caem pouco a pouco
os meus olhos no olvido,
é o mundo que sempre nos foi indiferente...

+++

cozinhas terra
com arrincadas ervas
aos caracois

+++

longas minhocas
e efémeros castelos
no lusco e fusco

+++

rubes as escaleiras
e ensaias os primeiros números
berras de ledícia
cada vez que a Lua,
o vermelho, o gigante ou o Luzeiro,
aparecem no ceo entre as nuvens
fitas em siêncio
quando ouves trabalhar ás abelhas
ou namorar aos paxaros
e nom perdes detalhe
do soar diferente dos artefatos do ceo
ou dos que andam na terra
e metes as mans na cozinha
com curiosa e impaciente vontade
pra torcer o fuzinho se acaso nom há sopa
e começas já
a tirar das tábuas objetos
cum balom de qualquer tamanho
e escreves e coloreas
no teu particular idioma gráfico
e já destrues bloques
que agora já construes
e nim as teclas nim as cordas
parecem ter já segredos
no percutir dos teus passos de dança
e vás-me fazendo sentir
o demoniaco passo do Tempo
nesta noite de insónia
e morna saudade

Escrito em Trelherma na madrugada do 6 de abril de 2020

luns, 6 de abril de 2020

maravilhoso veleno
que me consome, peçonhento
e faz que a agonia
seja um melancólico elixir
cara o Irremediável

martes, 5 de novembro de 2019

Se marchassem as nuvens veriamos a Lua

Se marchassem as nuvens
veriamos a Lua
e a choiva que nos aterece polo caminho
seria um recordo dum tempo recente
no que a linguagem era só uma olhada,
um sorriso ou um balbucio

Se marchassem as nuvens
veriamos a Lua
e os nossos pensamentos voariam
cara o infinito ceo estrelado
e o teu cantarujar
agromaria pequenas flores neste Outono

Se marchassem as nuvens
veriamos a Lua
e centos de luzecús dançantes
ficariam imóveis no ar
namentres o voo da curuja
guiaria o nosso assombro cara o Além

Escrito entre Trelherma e Chantada os dias 4 e 5 de novembro de 2019
sobre uns versos de Luz de caminho a casa...

martes, 29 de outubro de 2019

Zoa o vento, namorado vou

Levei-te amiga, nas nove ondas
Ula dorna antiga que leva as novas?
Zoa o vento, namorado vou

Levei-te senhora, nas augas mornas
Ulos doces cantos que no ar soam?
Zoa o vento, namorado vou

Levei-te e sonhei-te, na noite tuda
Ula branca lua sempre teimosa?
Zoa o vento, namorado vou

Levei-te e mirei-te, na ialba nova
Ulo olhar teu, feiticeiro que amossas?
Zoa o vento, namorado vou